5 de maio de 1994."O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo..."
"Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
O texto do Celso, ainda nos lembra que, ler e escrever, tem o poder mágico de nos confortar e nos dar esperança: "...a poesia pode ser o milagre de uma palavra encantada no meio do desespero."
Celso Gutfreind
Poeta e psiquiatra gaúcho.
Publicado no Jornal Zero Hora, Porto Alegre/RS - Segundo Caderno, de 19-04-2006, em comemoração ao centenário de Mario Quintana.
Foi na adolescência que comecei a ler Mario Quintana. Já ali fiquei impressionado com seu Esconderijos do Tempo; em seguida, procurei outros lugares de sua obra e, ainda ali, um resquício de criança vibrou escondido com o doutor Queijando e com letras que eram como pessoas. Poucos anos depois, a vida me botou na frente dele. O jornalista Sérgio Saraiva chamou dois autores jovens, Ricardo Portugal e eu, para entrevistarem o poeta. Ele completava oitenta anos, enquanto mal tínhamos saído dos vinte. Ouviu atentamente as perguntas, respondeu. com piedade e humor; ao final, chamou-nos de vergonhosamente jovens. Bem feito para nós, que nos metíamos com o ritmo da experiência. Pior para ele que, dias depois, precisou consultar na emergência do Hospital Pronto Socorro, onde eu atendia como estagiário. O feitiço do aprendiz voltava-se contra o aprendiz de feiticeiro. Ele acusou o golpe ao me reconhecer: - Mas é o vergonhoso... Depois agüentou o tirão como quem aceita a pesada moeda, não da poesia como cantava, mas da vida como vivia. Era madrugada naquele canto insone da cidade. Supliquei a um colega de plantão que atendesse a um travesti esfaqueado e fui me ocupar do poeta. Seu nariz sangrava por causa de uma pressão alta. Mediquei-o, a pressão cedeu, mas o que mais lhe interessou foi o prontuário que eu preenchia para mostrar ao médico-chefe. Pediu licença para ler e encarou as palavras epistaxe hipertensiva. Ignorou o hipertensiva, mas se agarrou à epistaxe como quem encontra um tesouro. Contou algumas histórias, conversou novamente com piedade e humor. Mas não perdeu o brilho nos olhos, diante da palavra, ao longo daquela madrugada violenta do Pronto Socorro.
Em seu Caderno H e espalhado em outros livros, há muitos poemas sobre a própria poesia. São de alto nível, mas nada mais alto do que me ensinou, sem dizer nada, na noite cheia de feridos e solitários: a poesia pode ser o milagre de uma palavra encantada no meio do desespero. E eu, espécie de doutor Queijando vergonhosamente jovem, aprendi a graça de que as letras podem ser mais ritmadas do que a vida e a morte das pessoas.
"Há bens inalienáveis, há certos momentos que, ao contrário do que pensas, fazem parte de sua vida presente e não do teu passado. E abrem-se no teu sorriso mesmo quando, deslembrado deles, estiveres sorrindo a outras coisas".
Ah, nem queiras saber o quanto deves à ingrata criatura...
A thing of beauty is a joy for ever - disse há cento e muitos anos, um poeta inglês que não conseguiu morrer.



